O seu rosto poderá influenciar o que paga? Nova Iorque quer impor limites ao rastreio biométrico

| 20 de março de 2026
O seu rosto poderá influenciar o que paga? Nova Iorque quer impor limites ao rastreio biométrico

Os legisladores da cidade de Nova Iorque estão a pressionar para proibir as empresas privadas de utilizarem ferramentas biométricas, como software de reconhecimento de voz e facial, para monitorizar o público.

Embora seja compreensível o desejo de utilizar tecnologia de vigilância nas lojas para combater os furtos, os legisladores e os defensores da privacidade receiam que os dados possam ser utilizados para criar perfis dos clientes.

A Câmara Municipal de Nova Iorque realizou uma audiênciasobre dois projetos de lei que proibiriam os senhorios e as empresas da cidade de utilizar tecnologia de reconhecimento facial.

  • Uma proposta tornaria ilegal a utilização de tecnologia de reconhecimento biométrico em qualquer espaço público para identificar ou verificar um cliente.
  • A outra proibiria os senhorios de instalar, ativar ou utilizar qualquer tecnologia de reconhecimento biométrico que identifique os inquilinos ou os seus convidados.

Neste artigo, pretendemos centrar-nos em algumas das razões subjacentes a estas propostas.

Para contextualizar, é importante saber que, na cidade de Nova Iorque, as empresas que recolhem dados biométricos já são obrigadas a afixar avisos padronizados para informar as pessoas.

Vamos ver o que acontece quando o nosso rosto se torna a nossa identificação e cada movimento numa loja pode ser transformado num novo dado.

Por que razão a recolha de dados biométricos é considerada negativa

A recolha de dados biométricos suscita várias objeções. As mais prementes são:

  • Identificadores únicos, mas difíceis de apagar. Embora seja possível redefinir uma palavra-passe, é mais difícil alterar o rosto. Isto significa que fugas de dados ou o uso indevido de modelos faciais, padrões de marcha ou impressões vocais podem criar riscos permanentes e ser associados entre bases de dados.
  • Preocupações com a precisão e o preconceito. Estudos e organizações de defesa das liberdades civis constataram que os sistemas de reconhecimento facial podem estar sujeitos a erros e apresentar preconceitos em relação a diferentes grupos.
  • Ausência de consentimento significativo. Na prática, os supermercados e os proprietários que utilizam o reconhecimento facial estão a oferecer às pessoas uma escolha meramente teórica. As pessoas podem fornecer os seus dados biométricos ou prescindir de serviços básicos. Os críticos argumentam que isto compromete o consentimento genuíno.
  • Efeito intimidatório. A sensação de estar constantemente a ser observado onde quer que se vá é desconfortável e pode dissuadir as pessoas de realizar atividades quotidianas e legítimas.
  • Preços de vigilância. Isto merece uma explicação mais detalhada, que abordaremos a seguir.

O que é a fixação de preços de vigilância?

É basicamente assim que o seu rosto se transforma num cartão de fidelidade indelével.

Imagine que entra num supermercado local e repara que pessoas diferentes pagam preços diferentes pelo mesmo artigo. Isso parecer-lhe-ia justo?

A fixação de preços baseada na vigilância refere-se à utilização de dados detalhados sobre os consumidores e de sinais comportamentais para ajustar os preços de forma dinâmica.

Há quem considere que os retalhistas utilizam perfis de big data para segmentar os clientes em grupos cada vez mais restritos, ao ponto de poderem cobrar a cada pessoa o valor máximo que o modelo estima que esta esteja disposta a pagar.

Já vemos exemplos disso na Internet. Quando se procura bilhetes de avião, por exemplo, os preços podem variar em função de vários fatores. Mas pode ser difícil perceber isso, e as empresas dizem-nos que não é nada pessoal. Mas imagine essa mesma lógica a seguir-nos discretamente até ao supermercado.

A forma como isto funciona online é relativamente simples: os sites monitorizam os cliques, o tempo de permanência na página, a atividade no carrinho de compras e os gastos anteriores para estimar a sua sensibilidade às variações de preço.

Nas lojas físicas, a situação é mais complexa, mas não impossível. Os dados dos sistemas de segurança das lojas, que também recolhem dados biométricos e de reconhecimento facial, podem ser combinados com programas de fidelização e aplicações, e a análise do tráfego Wi-Fi nas lojas poderia, em teoria, ser utilizada para criar perfis semelhantes.

As etiquetas eletrónicas de prateleira (ESL) já permitem aos retalhistas alterar instantaneamente os preços nas prateleiras em toda a loja ou em secções específicas.

Isto poderia levar a situações em que os clientes mais abastados ou mais fiéis a determinadas marcas acabassem por pagar discretamente mais. Ou ainda, grupos vulneráveis poderiam ser alvo de descontos manipuladores para produtos com margens de lucro mais elevadas ou mesmo menos saudáveis.

O que fazer?

Infelizmente, não existe uma forma simples de contornar as restrições de privacidade num sistema capaz de transformar o seu corpo num identificador de localização. A solução mais eficaz é enfadonha, mas eficaz: leis com força de lei, entidades reguladoras que as façam realmente cumprir e lojas que não ocultem o que estão a fazer.

Pode:

  • Evite lojas que anunciem abertamente a utilização de leitura biométrica quando existirem alternativas.
  •  Apoiar os esforços locais e nacionais para regulamentar o rastreio biométrico e práticas relacionadas, tais como as propostas da Câmara Municipal de Nova Iorque.

Não devíamos ter de trocar o acesso a alimentos, habitação ou serviços básicos pela possibilidade de circular pela cidade sem que os nossos corpos sejam explorados para a recolha de dados. Se não traçarmos essa linha agora, práticas como a tarifação baseada na vigilância poderão, silenciosamente, incorporar a desigualdade e a discriminação em algo tão quotidiano como a compra de mantimentos.


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Sobre o autor

Pieter Arntz

Investigador de Inteligência de Malware

Foi um Microsoft MVP em segurança do consumidor durante 12 anos consecutivos. Sabe falar quatro línguas. Cheira a mogno rico e a livros encadernados em pele.