Um pedreiro de 49 anos vendeu seus pertences antes de viajar 2.000 km de ônibus de sua casa no Brasil para encontrar "Jéssica", uma influenciadora digital por quem se apaixonou. No entanto, apesar de ter uma conta nas redes sociais com mais de 300.000 seguidores, ela nunca existiu.
Edimar Rocha Martins mora em Imperatriz, cidade do nordeste do Brasil. Ele afirma ter iniciado uma conversa online com Jéssica Fazendeira, que supostamente morava perto de Belo Horizonte, cidade do sudeste do país.
A persona de IA que promete amor
O nome da persona online, “Fazendeira”, pode ser traduzido livremente como “fazendeira”. Ela se descrevia como alguém que vivia em uma fazenda.
Martins afirmou que vinha conversando com a persona online desde 2020. Ele decidiu visitá-la depois que ela se ofereceu para pagar sua viagem e para que ele morasse em sua fazenda, disse ele. O operador da conta contesta essa versão, afirmando que a personagem foi criada em 2025 e negando ter trocado mensagens privadas com ele.
Um vídeo publicado em uma de suas contas online (capturado aqui pela agência de notícias brasileira Imirante) pedia que um homem fosse morar com ela e se oferecia para financiar a viagem.
O agricultor gerado por IA diz, em tradução livre:
Não estou brincando, minhas intenções são sérias. Quero conhecer alguém que queira construir algo real e bonito comigo. Se você for um homem simples que gosta de paz, tranquilidade e uma vida calma, então talvez nos demos muito bem.
Após vender seus pertences para financiar a viagem de ônibus, Martins chegou a Belo Horizonte e começou a perguntar sobre a mulher. Sem conseguir encontrá-la, ele procurou uma rádio local, onde os funcionários explicaram que ela era uma personagem gerada por inteligência artificial.
Sem dinheiro suficiente para voltar, ele recebeu comida, apoio e uma passagem de ônibus para Augustinópolis, no Tocantins, do serviço de assistência a migrantes da cidade. Mais tarde, retornou a Imperatriz, onde ficou hospedado com parentes.
O operador da conta rebateu.
O administrador da conta publicou uma mensagem através da conta do TikTok do personagem de IA negando qualquer tipo de golpe. Traduzindo, a mensagem dizia:
Este perfil está praticamente abandonado, mas vim aqui para dizer o óbvio. Sou feito de inteligência artificial e nunca conversei com ninguém por meio deste perfil. O objetivo era gerar engajamento para vendas. Nunca falei diretamente com ninguém, muito menos trouxe alguém a Belo Horizonte.
O operador disse aos repórteres que o personagem foi criado para atrair espectadores e promover produtos por meio de vendas de afiliados. Ele afirmou não saber se outras pessoas haviam reutilizado o conteúdo do personagem em outras contas.
Outro vídeo mostra mensagens que as pessoas supostamente enviaram para a conta, com o personagem explicando que ele continua dizendo aos espectadores que é uma IA. Ele reclama:
E mesmo assim a culpa continua sendo minha, certo? Essas pessoas estão perdidas.
Em outro vídeo, onde é entrevistada por um personagem masculino gerado por IA, a persona explica que desativou e depois reativou sua conta. Ela disse:
Eu fui a primeira IA a ser cancelada sem absolutamente nenhum motivo.
Essas são respostas pré-programadas publicadas por meio de um personagem fictício, em vez de uma IA se defendendo de forma independente.
A polícia afirmou que não podia determinar naquele momento se um crime havia ocorrido.
Um veículo de comunicação noticiou que Martins tem enfrentado problemas de solidão após a morte de sua mãe.
Os vídeos publicados na conta reativada do TikTok são rotulados como gerados por IA. Também inclui um link para um Instagram relato com vídeos do personagem, onde os vídeos têm rótulos semelhantes. Esses rótulos atuais não estabelecem o que Martins viu antes de sua viagem.
As redes sociais já incentivam relações parassociais, em que os usuários sentem uma conexão pessoal com alguém que não os conhece. Personas geradas por IA adicionam outra complicação: a pessoa com quem os usuários se sentem conectados pode ser totalmente fictícia.
Em nosso relatório "Valor Facial" , 88% dos adultos entrevistados disseram que está se tornando mais difícil distinguir o conteúdo online que é genuinamente humano ou real.
A trama da IA se complica.
Em junho, houve relatos de um homem de 72 anos que viajou 4.000 km de sua casa em Boa Vista até Belo Horizonte. Ele foi para lá depois de ver uma agricultora em uma rede social que oferecia uma oportunidade de emprego e talvez algo mais. Sem poder voltar para casa, ele buscou ajuda de assistentes sociais.
Em agosto, Alberto da Costa, de 71 anos, viajou de Manaus para a mesma cidade depois de assistir a vídeos com a mesma mulher, segundo o Itatiaia. Ele pagou quase R$ 3.000 por uma passagem aérea e, em seguida, procurou ajuda do veículo quando não conseguiu arcar com a passagem de volta para casa.
Os vídeos simulavam conversas pessoais, dando aos espectadores a impressão de que a mulher estava falando diretamente com eles. A conta tinha, segundo relatos, quase um milhão de seguidores.
A reportagem não esclarece se essa mulher foi criada por inteligência artificial ou se a conta estava ligada à de Jéssica. Também não confirma se os homens enviaram dinheiro para os operadores da conta. Mas os custos ainda podem ser reais: vender pertences, pagar por viagens e ficar sem transporte longe de casa.
Proteja-se e proteja os outros.
As mesmas recomendações para golpes românticos se aplicam aqui, mas com algumas ressalvas. Não envie dinheiro nem viaje para encontrar alguém que você nunca viu antes sem antes verificar a identidade da pessoa.
Não confie apenas em videochamadas. Golpistas agora usam videochamadas deepfake para enganar vítimas ao vivo. E verifique se você está trocando mensagens privadas ou assistindo a vídeos públicos que qualquer pessoa pode ver.
Procure informações além da própria conta. Pesquise o nome e as fotos do perfil, e investigue onde dizem trabalhar. Desconfie se a história não fizer sentido ou se evitarem perguntas sobre a identidade.
Quando você se sente próximo de alguém, questionar essa conexão pode ser difícil. Antes de enviar dinheiro ou reservar uma viagem, converse com um amigo ou familiar e peça a opinião dele. E se você estiver preocupado com alguém que possa estar em uma situação semelhante, entre em contato sem julgamentos e ofereça-se para analisar a conta juntos.
Imagens cedidas pela Jam Press
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